Janeiro 7, 2009

Gomorra

 

072Gomorra, sensação cinematográfica italiana, é um filme pretensioso. Quer ser a obra audiovisual definitiva da máfia. Para isso, acompanha cinco histórias diferentes, que nunca se cruzam, para compor um grande painel da Camorra, fenômeno mafioso do país em forma de bota, que cresceu no meio urbano e é responsável por atividades criminosas como contrabando, tráfico, agiotagem, extorsão, além dos eventuais homicídios.

Matteo Garrone deve ser elogiado por não cair na tentação que prejudicou Crash eBabel: conectar as histórias, obrigando aos espectadores a comprarem a forçação de barra das inverossímeis coincidências que infestaram as produções de Paul Haggis e Alejandro Gonzalez Iñarritu.  Porém, ao compor seu longa, Garrone se esqueceu do que sobra em Crash e Babel: construção dos personagens. Os personagens são utilizados no filme italiano quase que como uma desculpa para atingir seu objetivo maior que é o tal raio-x da máfia. Por isso, o espectador acaba por não se envolver realmente com ninguém. Garrone até tenta uma conexão, através das influências do documentário, como a utilização atores não profissionais, cenários realistas, câmera em movimento, além dos closes nos rostos, mas é impossível com a montagem confusa e as histórias não tão bem construídas.

Apesar de querer mostrar a influência da Camorra através de personagens específicos, Garrone, no fundo, parece estar menos interessado nessas vidas do que em denunciar a organização criminosa. Talvez por isso, para mim, não funcionou tanto como uma obra de ficção, ficou cansativo. Mas o filme me abriu o apetite para ler a obra da qual foi baseado, livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano. Assim, como reportagem, essa história deve ser mais bem-sucedida. 

Janeiro 7, 2009

Marley & Eu

012Não deixe de ver Marley e Eu porque você detesta filmes com animais. Provavelmente, assim como boa parte dos espectadores lúcidos, você não curte produções nas quais os animais são mais espertos do que qualquer ser humano que você conheça. Assim como você odeia crianças que mais parecem adultos em miniatura, também não é muito fã de baleias que viram melhores amigas do garotinho, ou de um cachorro que se apaixona por um golfinho ou de um papagaio que conversa fiado com Tony Shalhoub. Acertei?

Se a resposta for positiva, vá assistir Marley & Eu sem esse medo. Marley é um cachorro normal como qualquer outro. É esperto e tudo mais, mas nada que vai fazê-lo pensar que o bicho conseguiria resolver uma expressão matemática.

Porém, se o roteiro de Scott Frank e Don Roos, baseado no fenômeno editorial homônimo, não coloca o filme nos ombros do cão, não existe muito interesse em assistir a história humana que se desenrola paralelamente às trapalhadas de Marley. Ao acompanhar o casal John e Jennifer Grogan, desde o começo do casamento até a construção de uma família, passando por crises, alegrias, gravidez, promoções e decepções, Roos e Frank, roteiristas talentosos, e David Frankel, o diretor, mostraram que não tiveram um poder de síntese que seria importante para contar uma história que se passa por tanto tempo.

Owen Wilson é engraçado, mas não dá conta das cenas dramáticas; Jennifer Aniston mostra, novamente, que é uma atriz versátil; Alan Arkin prova que mesmo no piloto automático é melhor que muito ator por aí e o tempo não fez nada bem para Kathleen Turner.

Marley e Eu é simpático, mas esquecível. Depois da sessão a única coisa que você vai se lembrar é que o cachorro é bonitinho. E só.

Outubro 31, 2008

Persépolis

 

Mudar o mundo é uma utopia, ação ou qualquer mera coincidência para inúmeras pessoas de coração bom. Que conseguem ter uma visão crítica e fazer uma análise mais otimista do nosso mundo, digamos, bastante esquisito. E para os orientais, a visão de mundo é mais ampla ou pelo menos diferente do que nós – pessoas do ocidente. As regras de lá não são tão balelas quanto às regras de cá. A religião não é tão fanática se compararmos às projeções neuróticas monetárias de cá.

 

Enfim, nossa geração, ainda não conhece o que de fato possa se chamar de guerra anacrônica ou pelo menos ter sentimentos mais próximos disso, até porque os jovens, pelo menos os brasileiros que conhecemos melhor, não têm em suas vidas, a maioria deles, uma política formada, talvez e por si só pequena, mais conformada. As últimas eleições para prefeito e vereador, não me deixa mentir sobre isso. É por isso que a animação Persépolis, baseada no livro homônimo da iraniana Marjane Satrapi e dirigido também por ela e por Vincent Paronnaud é um belo filme para recuperarmos nossos pensamentos de outrora.

 

Marjane “Marji” Satrapi (voz Chiara Mastroianni) era apenas uma garotinha iraniana de oito anos quando a revolução islâmica derrubou o xá do Irã, em 1979. Até então ela sonhava em ser profetisa para mudar o mundo. Bisneta do antigo rei da Pérsia, ela cresceu em uma família de esquerda, moderna e ocidentalizada, e estudou numa escola francesa e laica. Com a chegada dos extremistas ao poder, as meninas foram obrigadas a usar o véu na escola e estudar em classes separadas dos meninos.

 

Bastante curiosa e questionadora, Marji assistiu ao início da revolução que lançou o Irã no regime xiita, e de espectadora crítica e atenta descobre que melhor que ser profetisa é ser revolucionária e que usar hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas) é uma grande besteira criada pelo regime opressor persa contra a liberdade feminina. No caminho, ela ainda descobre que Marx pode ser melhor que Deus ou que os dois são a mesma pessoa. Que descobrir o mundo, além do Irã, pode ser sofrido quando sente o que pode ser uma grande desilusão amorosa ou ainda descobrir que identidade é uma pedra preciosa de toda formação humana.

 

O longa de animação é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito e ilustrado por Marjane Satrapi, é uma autobiografia primorosa e divertida sobre a realidade sofrida e bastante feliz de uma menina de olhos doces e idéias mirabolantes que depois de anos consegue mobilizar uma guerra contestatória a política ditatorial do Irã utilizando as mãos e o nanquim. Tecnicamente são traços em preto e branco belíssimos, que traz uma esfera meio noir, meio bucólica. Tendo como seu braço forte de questionamento e companheirismo, a avó (voz de Danielle Darrieux), que ainda apresenta os melhores e mais irônicos diálogos do filme e permite um ar de poesia em quadrinhos.

 

E ainda temos a refinada voz de Catherine Deneuve, como mãe de Marjane. Uma aula de história e reflexão sobre um dos países mais econômica e culturalmente rico do mundo. Atualmente Marjane vive na França e como no filme, ela sai do Irã pela segunda vez para nunca mais retornar. E quem sabe um dia o filme se passe no próprio país-personagem. Até porque, isso será uma luta que talvez Marji não queira entrar. Segundo alguns jornais, o governo iraniano já boicotou a exibição do filme porque credita que é uma propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã e do Islã. De qualquer forma, o filme foi o representante francês para a disputa do Oscar deste ano. E isso já é uma grande vitória!

 

MovieMobz

O filme Persépolis já saiu de cartaz há alguns meses, no entanto houve uma única exibição mobilizada no dia 30 de outubro de 2008, no Usina de Cinema, em Belo Horizonte. Havia mais de 50 pessoas na sala. Número raro para uma sessão em plena quinta-feira, às 21h, paga. Isso é resultado de uma idéia interessante de mobilização para ver ou rever filmes que passaram ou não pelas capitais. No site www.moviemobz.com, você se cadastra, escolhe o filme que está em cartaz no site, mobiliza as pessoas e a sessão acontece por apenas R$6 nos cinemas conveniados com o MovieMobz. Participe!

 

Outubro 14, 2008

Uma garota dividida em dois

 

Numa dualidade comedida, entre futilidade e refinamento primoroso, o diretor francês Claude Chabrol, não excede em absolutamente nada em seu mais recente filme Uma Garota Dividida em Dois (La Fille Coupée en Deux ). Pelo contrário, joga tudo o que quer dizer ali na frente do espectador e demonstra que aquilo que vemos é tudo aquilo que queria ser dito, sem mais ou menos, ou até mesmo sem trocadilhos. Inclusive a originalidade da cena final que não peca em nada e traz um grande fechamento daquele mundo de vaidade, tanto do bem quanto do mal. E é muito sutil como Chabrol trabalha esses dois universos nas figuras de uma esposa considerada santa, Dona Saint-Denis (Valerie Cavalli), sempre composta por um figurino branco e sua editora, Capucine Jamet (Mathilda May) sempre vestida com roupas pretas em cena. Uma mistura singela entre a deusa e a diaba. O número dois aqui não é mera coincidência, sempre há dois lados em toda sua narrativa.

 

Mas o filme não se concentra nisso, apesar de cada detalhe falar por si só, a história é baseada na vida da apresentadora de metereologia, Gabrielle Deneige (Ludivine Sagnier), de 25 anos, que se apaixona perdidamente pelo escritor Charles Saint-Denis (François Berléand), ao mesmo tempo o jovem milionário e totalmente desequilibrado, Paul Claude Gaudens (Benoit Magimel) se apaixona por ela, mas sem esta retribuir. Na verdade nessa história, Chabrol não posiciona muito o tempo e nem mesmo as motivações de cada personagem, pois não sabemos por que ela em único dia apaixona pelo escritor 30 anos mais velho e nem mesmo conhecemos as reais intenções do herdeiro jovem, bonito e rico. No entanto, talvez isso seja o que menos importa.

 

O jogo de câmera que Chabrol apresenta é um jogo de perspicácia casada de maneira sublime com a trilha sonora feita pelo seu filho Matthieu Chabrol. A introdução do filme tem imagens belíssimas com um ar de jantar com vinho. É delicioso acompanhar a câmera no carro ao som de música clássica. É quase um túnel nostálgico sem saída para a atualidade inesperada. Um livro sem ter aberto. Uma leitura suntuosa e hostil. Um fragmento de doçura como uma cereja na ponta do sorvete. Chabrol é surpreendente e proporciona aos espectadores uma seleta seleção de atores, estética, música e história. E obviamente uma crítica ácida, seja contra a televisão ou costumes frívolos sociais ao mesmo tempo em sintonia com o amor e as tragédias que ele pode ocasionar sem medida.

Setembro 13, 2008

O Nevoeiro

O que pode ser mais aterrorizante que o ser humano, quando colocado em um contexto em que não há leis sociais? Para o diretor Frank Darabont, nem criaturas gigantes com asas e tentáculos, escondidas em um nevoeiro, conseguem ser pior que seu semelhante em tais condições.

Uma tempestade assola uma simpática cidadezinha norte-americana, e junto com ela um nevoeiro começa a se formar e a avançar. Para reabastecer suas casas antes de uma nova surpresa climática, os habitantes do lugar vão a um supermercado, o que provoca uma pequena bagunça, agravada pela falta de energia causada pela chuva. O nevoeiro continua a avançar quando, de repende, um homem sai sagrando do grande branco que virou a cidade. Ele diz que há criaturas na névoa. Se, boa parte da população do supermercado não acredita em um primeiro momento, a situação muda quando um garoto é morto pelos tentáculos do ser estranho.

Com o supermercado envolto pelo nevoeiro, todos ficam presos. É a deixa para o discurso da fanática religiosa Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden, na grande atuação do filme e, talvez, a maior de sua carreira) crescer. Para ela, as criaturas são um castigo de Deus. Na pequena síntese de sociedade formada no supermercado, todos vão obtendo papéis, e o dela, é o que desestrutura o que já está desestruturado. Ao longo da história, Carmody vai plantando sementes de fanatismo na cabeça de cada um dos habitantes desta mini-sociedade, já que, como no mundo real, idéias fanáticas acabam virando respostas para alguns mistérios do mundo.

Lógico, há o filme de monstro. Há o héroi, as cenas de tensão, as de ação. Tudo bem orquestrado por Darabont. Mas O Nevoeiro é de Mrs. Carmody e a construção dessa parcela de seres humanos que passam a conviver juntos. O filme podia ser só isso, e os monstros, se bobear, poderiam aparecer com menos intensidade do que já tem. Pena que Darabont não abriu mão das criaturas e fez sua pequena homenagem à filmes de terror dos anos 80. O que, em nenhum momento, tira os créditos do diretor. Quarta obra de Stephen King que ele adapta, aqui ele mostra suas habilidades de uma forma discreta. Alguns movimentos de câmera são particularmente interessantes, como quando filmando em plano geral o caos entre as pessoas, ela se aproxima do rosto de David, o héroi da história,e oferece a vista do espectador a expressão petrificada (ou algo parecido com isso, já que com o ruinzinho Thomas Jane tudo fica um pouco limitado) do homem, diante da situação que começa a tomar forma. 

Some a tudo isso um final corajoso para os padrões hollywoodianos e temos um filme de monstro, ou melhor, um filme de humanos acima da média.   

Setembro 6, 2008

Linha de Passe

Depois de se aventurar em solo, Walter Salles volta à sua parceria com Daniela Thomas, primeiro em uma prévia, no segmento de alguns minutos de Paris, Te Amo e agora, em Linha de Passe, filme que saiu vencedor da categoria atuação feminina no Festival de Cannes. A parceria, pelo visto, faz muito bem para Walter Salles, como cineasta brasileiro. Não que sem ela, o diretor faça filmes piores. Central do Brasil está aí para não me deixar mentir. Mas, parece que, com Thomas, o Salles calculado de Abril Despedaçado ou Diários de Motocicleta, dá lugar a uma direção dupla que preza por algo mais natural, mais realista que, conseqüentemente, produz momentos profundos de um Brasil verdadeiro.

 

Em Linha de Passe, os diretores observam a vida de uma família na periferia de São Paulo. Cleuza (Sandra Corveloni) é a mãe, uma corintiana fanática, grávida de um homem sem nome e rosto, como quase todos os outros pais dos quatro filhos que já tem. É uma mãe preocupada que tenta levá-los para o bom caminho e apoiá-los, mas isso não faz dela uma santa. Fuma compulsivamente e bebe mesmo com uma criança na barriga, além de dar cigarros para o filho da dona da casa onde trabalha como empregada. O filho mais velho, Denis (João Baldasserini) é um motoboy bon-vivant que nunca tem dinheiro para ajudar em casa e para pagar remédios do próprio filho, mas sempre arruma alguns trocados para os seus prazeres. Dinho (José Geraldo Rodrigues) é um ex-garoto problema que virou evangélico e trabalha como frentista para um patrão que não dá a mínima para o garoto. Dario (Vinícius de Oliveira) sonha em ser jogador de futebol, mas nunca passa pelas peneiras, ou por ser “fominha” demais, ou por ser velho demais. E Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), o caçula, filho de um motorista de ônibus negro e, conseqüentemente, o único negro dos filhos de Cleuza, mata aulas para passar o dia viajando de ônibus para, assim, encontrar seu pai.

 

Salles e Thomas tem o cuidado de não deixar seus personagens caírem no estereótipo. O evangélico não é caricaturado por ser um religioso fanático, nem o motoqueiro é construído através do protótipo do malandro. Há um equilíbrio e um extremo cuidado na construção de todos eles. Por isso, um espectador mais acostumado com os arquétipos do cinemão tradicional e fechado a caracterizações mais realistas pode até chiar por sentir falta daquelas cenas de explosão, daquele clímax, daquelas emoções artificiais produzidas por esse tipo de filme. Esses modelos não têm vez em Linha de Passe. Aliás, em um momento os diretores até se rendem às explosões emocionais (cena do filho motoboy no carro de um homem de classe mais alta). Mas essa pequena derrapada só serve para mostrar que o que funciona mesmo em Linha de Passe é o realismo, a naturalidade, o equilíbrio dos personagens.

 

Claro, nada disso seria possível sem um elenco de primeira. Diga o que quiser do método Fátima Toledo de preparação de atores, mas que é extremamente eficaz isso não se pode negar. Grandes atuações do cinema brasileiro saem da preparadora de elenco e agora ela tem mais cinco feitos para colecionar. É injusto destacar alguém. Acredito até que, o prêmio de melhor atriz para Coverloni foi uma forma de Cannes premiar um elenco extremamente coeso e talentoso, já que não existe um prêmio de elenco no Festival. Todos estão tão imersos nos personagens, que nem parecem atores interpretando alguém, e sim o próprio alguém.

 

Já li que Linha de Passe passa uma idéia de determinismo social. Para mim, é justamente o oposto. Salles e Thomas não julgam ninguém, nem classe baixa, nem alta e nem média. Seus personagens centrais não são tratados como coitados que são como são por causa do meio em que vivem. É óbvio que influencia, mas a São Paulo caótica e desumana não é a justificativa das atitudes que eles tomam. É essa consciência de que não há necessidades de julgamento que faz de Linha de Passe um filme maior. E o estilo extremamente realista, quase documental, a fotografia sem cores vibrantes, a trilha pesada em alguns momentos só engrandecem o filme de Salles e Thomas. Salles e Thomas. Espero repetir isso mais vezes daqui para frente. 

 

Agosto 29, 2008

Romeu e Julieta da desigualdade social

Com algumas exceções, parece que cinema popular no Brasil não pode ser sinônimo de obras de qualidade. Basta dar uma olhada no ranking de bilheteria de filmes brasileiros no ano passado. Encabeçado por Tropa de Elite, segue com A Grande Família: O Filme, Xuxa Gêmeas, Primo Basílio, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Turma da Mônica: Uma Aventura no Tempo, O Homem Que Desafiou o Diabo, Ó Paí Ó, Cidade dos Homens, finalizando com Caixa Dois. Dessa turma, se tirarmos Capitão Nascimento e Laranjinha e Acerola, temos apenas produções duramente criticadas pela imprensa. É nesse contexto que entram nomes como Breno Silveira e Mauro Lima. Por mais que não morra de amores por ambos, são diretores que, com ajuda de gente talentosa, tentam conciliar qualidade com popular, e acabam por arrebatar público e crítica, como em Dois Filhos de Francisco, de Silveira e, em menor escala, Meu Nome Não é Johnny, de Lima.

Aí que entra Era Uma Vez…, segundo filme de Silveira, que também contou com gente talentosa. O roteiro é de Patrícia Melo, com colaboração de Domingos de Oliveira. O filme é da Conspiração Filmes que já levou ao público coisas legais como Casa de Areia, Redentor, O Homem do Ano, Eu Tu Eles. Talvez a pretensão não seria bater os recordes de Dois Filhos de Francisco, mas que queriam fazer um produto de qualidade para o grande público, é visível. Só que alguma coisa não funcionou.

É claro que não se pode esperar originalidade na história de um morador da favela que se apaixona por uma menina de classe bem mais alta. Silveira, conscientemente, trabalha com clichês e mostrou em Dois Filhos de Francisco que sabe emocionar mesmo fazendo a coisa mais batida do mundo. É só lembrar da primeira parte do filme, quando a infância da dupla sertaneja é mostrada. Longe de ser o filme sensacional que pregaram, ele sempre usa dos lugares comuns de filmes-de-cantores-que-tiveram-uma-infância-pobre-e-sofrida, mas provoca uma emoção genuína, importantíssimo para um filme popular. Já em Era Uma Vez…., o diretor também usa dos clichês, mas aqui, ele abusa um bocado, o que transforma a emoção em incômodo. Não tem nada aqui que não fuja do deja vu: a questão da desigualdade amplamente trabalhado em cinema, novelas, minisséries e várias outras produções audiovisuais brasileiras. A questão do amor impossível, exaustivamente falado em filmes do mundo, com direito a ex-namorado almofadinha da mocinha, a mãe pobre que tem medo das consequências que um namoro entre duas classes sociais distintas pode trazer à ela e a pai rico que, se a princípio aceita o namoro dos dois é porque já foi pobre uma vez na vida. O didatismo também empobrece um filme que já não é dos mais ricos. Precisa os protagonistas estarem lendo Cidade Partida? Precisa do “mini-documentário” sobre Thiago Martins no fim do filme? Até mesmo no pôster o filme é didático Nele, os protagonistas estão se beijando e, abaixo, uma imagem do Rio de Janeiro, englobando o morro e os prédios de classe alta. Por fim, a pitada de mestre: uma rachadura separando o casal e a cidade.

Mas é no final que o filme chega ao fundo do poço. Sem querer estragar, mas consciente de que você já deva desconfiar como é, ele parece ter sido feito às pressas. Mesmo que o final não pudesse ser outro, devido às intenções do roteiro, ele não foi trabalhado suficientemente para que a público possa degluti-lo sem problemas.

A possível conclusão é a que, quem faz cinema popular no país, deve ter consciência de que seus roteiros devem ser bem melhor trabalhados. Afinal, Era Uma Vez é um filme com uma ótima fotografia, um diretor que (ainda) acredito ter talento quando tem um material bom em mãos, e um bom elenco, com destaque para Rocco Pitanga e Martins. Porém, deu errado. Se o roteiro fosse bom, a situação seria outra. Aliás, seria bem melhor que qualquer um de nós poderia imaginar, pois, escrever coisa boa de uma premissa pra lá de batida como esta, seria algo a se lembrar.


Agosto 26, 2008

Andarilho

 

 

Nada melhor que começar a semana assistindo ao um bom filme, tomando uma boa cerveja depois e comer salgados finos deliciosos gratuitamente. E mais: ganhar o DVD com o documentário Tomba Homem das mãos do próprio diretor Gibi Cardoso (filme que terá sua estréia no Festival Indie em outubro). E olha que nessa segunda (25) acordei nem tão bem, com um pouco de preguiça da vida, mas terminei com boas reflexões existenciais e uma vontade louca de pegar mochila e estrada, sem rumo. Andarilho é o novo filme de Cão Guimarães que estréia semana que vem nos cinemas brasileiros. Nesta segunda, ocorreu a pré-estréia com direito a presença dos realizadores e coquetel posterior no Usina de Cinema, em Belo Horizonte.

 

Um filme de imagens, silêncio e poucos diálogos não tão compreendidos em sua totalidade. Belíssimas paisagens de uma estrada sem linhas retas com pessoas sem identidades fixas. Uma trilha sonora enigmática do Grivo e uma fotografia de dar dó aos olhos sem percepções e pouco sensíveis aos detalhes. Pego a escrever um diário de bordo daqueles que estão sempre a buscar algo talvez sem resposta. Um muro sem parede, uma alma sem volta. Quem são essas pessoas que nunca estão ali, parados? Seres incessantes à inquietude.  

 

Por que não vamos? Sem cogitar uma fuga ou dar explicações ao acaso. Vamos. Vamos? O sentir pode vir daquele momento que somos sombras na pedra ou que só enxergamos uma luz do farol numa noite quieta das estradas. Somos pólvoras em um plástico que rola na terra. Seres estranhos num ambiente transitório. Será que precisamos do outro para nos encontrar ou nos encontramos imersos na solidão? As perguntas que fazemos a nós mesmo são respondidas sozinhas ou em conjunto ao silêncio?

 

Cão Guimarães é um artista plástico, onde a grande tela das salas de cinema são suas pinturas em movimento. Cada plano é um quadro de sua exposição sobre a solidão. Andarilho é o segundo filme dessa trilogia (O primeiro é Alma do Osso lançado em 2004) e retrata a relação entre o caminhar e o pensar segundo a ótica de três andarilhos solitários que percorrem trajetórias distintas em estradas do nordeste de Minas Gerais. É a vida como um lugar de mera passagem.

 

Alma, Deus, anjos e o apocalíptico. Um dos andarilhos explica sua concepção de mundo, sua estrutura histórica de vida e um possível final para todos nós. Esse é o início de uma estrada dentro do filme. Explicações ora entendidas ora consideradas devaneios para aquele que conta e nós que ouvimos. O outro joga pedrinhas, como se fossem, cada uma delas, histórias, que vão para trás ou são memórias que já perdemos. O outro traz o senhor é deus como um outdoor em rodas. Um carrinho que caminha e prega como o condutor que distingue a importância dos pontos de vistas daqueles que vêem de estradas diferentes e que não necessariamente seguem uma direção. A viagem é aquele espaço livre da vida. Só vai a algum lugar aquele que procura.

 

www.caoguimaraes.com

 

Agosto 25, 2008

O Retorno de Zé do Caixão

Reestreiou, na última sexta, dia 22 de agosto, o filme Encarnação do Demônio, de Zé do Caixão. Passando inicialmente em cinemas de shopping, o filme do coveiro que procura a mulher para gerar o filho perfeito, não foi bem de bilheteria, saindo de cartaz depois de uma semana. Agora, a reestréia é a chance de o público assistir uma obra como poucas no Brasil. Para alguns críticos, um dos filmes mais ousados da cena contemporânea do audiovisual brasileiro. Análise do filme na Revista Cinética e no Filmes Polvo. Em breve colocaremos a nossa. Ainda não vimos o filme. Mas, vamos prestigiar Zé do Caixão, um dos grandes ícones brasileiros com uma longa história cinematográfica.

 

Agosto 21, 2008

Os Desafinados

 

Não estamos numa fase de boa colheita no país. Talvez seja o clima, muito quente para um inverno. Depois de Era uma Vez… e Nome Próprio, estréia Os Desafinados do diretor Walter Lima Júnior. Literalmente música ruim aos ouvidos. Toda a falta de sintonia é percebida do início com a vontade de demonstrar os sentimentos de uma geração de jovens que realmente fizeram algo nas décadas de 60 e 70 até o final do filme, entre imagens cheias de clichês do desejo de escancarar a globalidade da bossa nova. O que se faz bem aos nossos ouvidos é a trilha, mas isso já havia sido criado.

 

Em meio à falta de criatividade e nenhuma novidade, Os Desafinados é uma grande novela, com uma narrativa simples, tendo como protagonismo à história de amor entre dois músicos. Bossa Nova que é bom só nas músicas. Nada de informações documentais e nem mesmo uma ficção coesa. Um grupo de jovens amigos músicos viaja a Nova York para tocar num concerto no Carnegie Hall e tendo seus planos frustrados, acabam entrando num pequeno clube de jazz no Village. Relembra muito aqueles programas dominicais da televisão, onde bandas se apresentam com playback. Um verdadeiro karaokê de farofa brasileira.

 

Política, em meio a um histórico de ditadura militar, música, um dos gêneros brasileiros de maior repertório e reconhecimento, e um leque de interessantes atores da nova geração do cinema brasileiro. Mas nem mesmo a junção dessa tríade possibilitou uma formação significante para comemorar a bossa nova em grande estilo. O período militar talvez tenha sido salientado pela grande produção do filme, que precisou ir até Buenos Aires, na Argentina e Nova York, nos Estados Unidos para contar uma historinha de amor.