
Com algumas exceções, parece que cinema popular no Brasil não pode ser sinônimo de obras de qualidade. Basta dar uma olhada no ranking de bilheteria de filmes brasileiros no ano passado. Encabeçado por Tropa de Elite, segue com A Grande Família: O Filme, Xuxa Gêmeas, Primo Basílio, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Turma da Mônica: Uma Aventura no Tempo, O Homem Que Desafiou o Diabo, Ó Paí Ó, Cidade dos Homens, finalizando com Caixa Dois. Dessa turma, se tirarmos Capitão Nascimento e Laranjinha e Acerola, temos apenas produções duramente criticadas pela imprensa. É nesse contexto que entram nomes como Breno Silveira e Mauro Lima. Por mais que não morra de amores por ambos, são diretores que, com ajuda de gente talentosa, tentam conciliar qualidade com popular, e acabam por arrebatar público e crítica, como em Dois Filhos de Francisco, de Silveira e, em menor escala, Meu Nome Não é Johnny, de Lima.
Aí que entra Era Uma Vez…, segundo filme de Silveira, que também contou com gente talentosa. O roteiro é de Patrícia Melo, com colaboração de Domingos de Oliveira. O filme é da Conspiração Filmes que já levou ao público coisas legais como Casa de Areia, Redentor, O Homem do Ano, Eu Tu Eles. Talvez a pretensão não seria bater os recordes de Dois Filhos de Francisco, mas que queriam fazer um produto de qualidade para o grande público, é visível. Só que alguma coisa não funcionou.
É claro que não se pode esperar originalidade na história de um morador da favela que se apaixona por uma menina de classe bem mais alta. Silveira, conscientemente, trabalha com clichês e mostrou em Dois Filhos de Francisco que sabe emocionar mesmo fazendo a coisa mais batida do mundo. É só lembrar da primeira parte do filme, quando a infância da dupla sertaneja é mostrada. Longe de ser o filme sensacional que pregaram, ele sempre usa dos lugares comuns de filmes-de-cantores-que-tiveram-uma-infância-pobre-e-sofrida, mas provoca uma emoção genuína, importantíssimo para um filme popular. Já em Era Uma Vez…., o diretor também usa dos clichês, mas aqui, ele abusa um bocado, o que transforma a emoção em incômodo. Não tem nada aqui que não fuja do deja vu: a questão da desigualdade amplamente trabalhado em cinema, novelas, minisséries e várias outras produções audiovisuais brasileiras. A questão do amor impossível, exaustivamente falado em filmes do mundo, com direito a ex-namorado almofadinha da mocinha, a mãe pobre que tem medo das consequências que um namoro entre duas classes sociais distintas pode trazer à ela e a pai rico que, se a princípio aceita o namoro dos dois é porque já foi pobre uma vez na vida. O didatismo também empobrece um filme que já não é dos mais ricos. Precisa os protagonistas estarem lendo Cidade Partida? Precisa do “mini-documentário” sobre Thiago Martins no fim do filme? Até mesmo no pôster o filme é didático Nele, os protagonistas estão se beijando e, abaixo, uma imagem do Rio de Janeiro, englobando o morro e os prédios de classe alta. Por fim, a pitada de mestre: uma rachadura separando o casal e a cidade.
Mas é no final que o filme chega ao fundo do poço. Sem querer estragar, mas consciente de que você já deva desconfiar como é, ele parece ter sido feito às pressas. Mesmo que o final não pudesse ser outro, devido às intenções do roteiro, ele não foi trabalhado suficientemente para que a público possa degluti-lo sem problemas.
A possível conclusão é a que, quem faz cinema popular no país, deve ter consciência de que seus roteiros devem ser bem melhor trabalhados. Afinal, Era Uma Vez é um filme com uma ótima fotografia, um diretor que (ainda) acredito ter talento quando tem um material bom em mãos, e um bom elenco, com destaque para Rocco Pitanga e Martins. Porém, deu errado. Se o roteiro fosse bom, a situação seria outra. Aliás, seria bem melhor que qualquer um de nós poderia imaginar, pois, escrever coisa boa de uma premissa pra lá de batida como esta, seria algo a se lembrar.