É fato: nossos vizinhos são mestres em filmar relações humanas, têm roteiros sensacionais e diretores que deviam ser mais vistos. Lucrecia Martel, por exemplo, é uma das minhas diretoras preferidas da atualidade e, se me pedissem para fazer uma lista de dez filmes deste século é bem provável que O Pântano estivesse entre eles. Os primeiros minutos de XXY, de Lucia Puenzo, dão a impressão que estamos diante de uma nova jóia argentina. Impressão apenas.
Cheia de simbolismos, a história de Alex, adolescente hermafrodita (aparentemente é uma menina) que ainda não sabe se quer ser homem ou mulher (ou nenhum) começa a ser contada de uma forma exemplar. Na primeira parte Puenzo mostra ser uma roteirista habilidosa, dando maior atenção às dúvidas, descobertas e prazeres sexuais de Alex. Prazeres estes que, vão para o lado oposto do que ela aparentemente parece ser, ou do que os pais queriam que ela fosse, o que traz questões interessantes ao filme. Como diretora Puenzo também mostra que promete. Papai Luiz Puenzo pode se orgulhar de alguns planos belíssimos da filha
A má notícia: assim como sua personagem, Puenzo não mostra o que realmente quer. Apesar de todos os elogios à primeira parte, o segundo momento demonstra as escolhas de um roteirista padrão, com situações típicas de uma história sobre uma figura que é minoria na sociedade. Vitimização da personagem, situações de preconceitos, etc. Temos o momento que Alex é vitima de comentários maldosos e o pai vai defendê-la; obviamente temos o personagem que passou pela mesma situação de Alex e que vai dar algum tipo de conselho; e, é claro, ela é estuprada. Esses clichês enfraquecem muito o ato final de XXY.
E se existem planos sensacionais, o filme é responsável por pelo menos duas das piores cenas que já vi no cinema argentino. Uma é a da cenoura e a outra é a conversa final do tio e do primo de Alex, que passam o filme hospedados na casa da menina. A primeira é de um mau gosto óbvio e a segunda é extremamente mau escrita. Uma pena, já que o começo de XXY demonstrava que Puenzo tinha capacidade de terminar melhor a obra.
Ficha técnica
Título original: XXY
Direção: Lucia Puenzo
Roteiro: Lucia Puenzo, baseado no conto “Cinismo”, de Sergio Bizzio.
Fotografia: Natasha Braier
Edição: Hugo Primero e Alex Zito
Direção de Arte: Alexandra Lassen
Música: Andrés Goldstein e Daniel Tarrab
Elenco: Inés Efron, Ricardo Darín, Valeria Bertucelli, Martín Pyroyanski
Duração: 86 minutos
Site oficial: http://xxylapelicula.puenzo.com/main.html
