
Não é muito difícil um filme sobre superação pessoal virar um dramalhão meloso. A história de Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle, que depois de um derrame ficou totalmente paralisado, exceto no olho esquerdo e, mesmo assim, conseguiu escrever um livro através de piscadelas, teria tudo para seguir tal caminho se estivesse em mãos erradas. Mas as mãos do diretor e artista plástico Julian Schnabel se mostraram mais do que certas, o que fez de O Escafandro e a Borboleta um grande filme, que mescla ótimos momentos com toques de genialidade.
A primeira parte de Escafandro é a responsável por maior parte dos tais toques. Em seus primeiros bons minutos, a câmera toma o lugar do olho de Bauby (Mathieu Amalric, sensacional). Vemos, então, o que ele vê, do jeito que ele vê. Quando Bauby tenta acordar, as imagens não são muito claras. Quando seus olhos lacrimejam, a imagem fica embaçada. Quando Bauby se comunica através de piscadas, a tela fica preta rapidamente, demonstrando o fechar das pálpebras. As pessoas, os médicos, as terapeutas, as mulheres, todos ao tentarem se comunicar com ele, falam diretamente para a câmera. Junte a tudo isso a mente de Bauby. Apesar da “carcaça” estar paralisada, a mente funciona a todo vapor, e tudo que ele vê é marcado com comentários do próprio, muitos deles com pitadas de humor, o que causa uma certa cumplicidade entre espectador e personagem principal.
Chega um momento no qual o subjetivismo não é utilizado tão constantemente, e o filme passa a ter uma estrutura mais clássica. Mas isso não vira desculpa para ser tradicional. É, mais ou menos, nessa hora em que Bauby percebe que, apesar de estar quase totalmente paralisado, sua mente funciona, e ele pode sonhar, imaginar, lembrar, etc. O filme passa a contar com imagens oníricas e metáfora visuais belíssimas representando o estado interno de Bauby.
O roteirista Ronald Harwood conseguiu sair das armadilhas da história-de-superação-pessoal e por isso passou longe do perigo de transformar O Escafandro e a Borboleta em um filme simplório. A grande sacada do roteiro é não focar a superação como o assunto do filme, nem relação do personagem principal com terceiros. Poucas cenas são utlizadas para falar de sua relação com o pai (Max Von Sydow, emocionante nas poucas cenas que aparece), ou da relação com a ex-mulher (Emmanuelle Seignner) e os filhos ou então com a atual namorada. O importante na obra é o que se passa na cabeça deste homem que agora só tem ela e um olho para usar.
Não é difícil imaginar porque O Escafandro e a Borboleta recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes. Apesar de um excelente trabalho em conjunto, de Harwood à música de Paul Cantelon, passando pela atuação do elenco (que além de Amalric e Sydow, destaco também Marie-Josée Croze, como a fonoterapeuta de Bauby, responsável por uma das melhores cenas do filme, quando ela vai descobrindo aos poucos as palavras que Bauby quer dizer, através das piscadas, e vai se decepcionando ou se emocionando com elas) e pelo ótimo trabalho de edição, o grande destaque é o diretor de fotografia Januzs Kaminski e o diretor Julian Schnabel. Com ajuda do talento de Kaminski, o diretor Julian Schnabel se mostra mais sensível do que nunca na construção de imagens. Ainda com Kaminski, a ousada idéia de fazer grande parte do filme através da câmera subjetiva, funciona perfeitamente.
Com Kaminski ao lado, e sem menosprezar o incrível talento dos outros profissionais que trabalharam em O Escafandro, Schnabel consegue fazer uma biografia que não será lembrada apenas pela atuação magnética do ator principal, como acontece em grande parte dos filmes-biografias. Será lembrada por ser uma obra de arte.
1 Comentário
Julho 9, 2008 às 8:38 pm
O texto tá mto bom!
Tava inspirado, hein…