Agosto 26, 2008...4:55 am

Andarilho

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Nada melhor que começar a semana assistindo ao um bom filme, tomando uma boa cerveja depois e comer salgados finos deliciosos gratuitamente. E mais: ganhar o DVD com o documentário Tomba Homem das mãos do próprio diretor Gibi Cardoso (filme que terá sua estréia no Festival Indie em outubro). E olha que nessa segunda (25) acordei nem tão bem, com um pouco de preguiça da vida, mas terminei com boas reflexões existenciais e uma vontade louca de pegar mochila e estrada, sem rumo. Andarilho é o novo filme de Cão Guimarães que estréia semana que vem nos cinemas brasileiros. Nesta segunda, ocorreu a pré-estréia com direito a presença dos realizadores e coquetel posterior no Usina de Cinema, em Belo Horizonte.

 

Um filme de imagens, silêncio e poucos diálogos não tão compreendidos em sua totalidade. Belíssimas paisagens de uma estrada sem linhas retas com pessoas sem identidades fixas. Uma trilha sonora enigmática do Grivo e uma fotografia de dar dó aos olhos sem percepções e pouco sensíveis aos detalhes. Pego a escrever um diário de bordo daqueles que estão sempre a buscar algo talvez sem resposta. Um muro sem parede, uma alma sem volta. Quem são essas pessoas que nunca estão ali, parados? Seres incessantes à inquietude.  

 

Por que não vamos? Sem cogitar uma fuga ou dar explicações ao acaso. Vamos. Vamos? O sentir pode vir daquele momento que somos sombras na pedra ou que só enxergamos uma luz do farol numa noite quieta das estradas. Somos pólvoras em um plástico que rola na terra. Seres estranhos num ambiente transitório. Será que precisamos do outro para nos encontrar ou nos encontramos imersos na solidão? As perguntas que fazemos a nós mesmo são respondidas sozinhas ou em conjunto ao silêncio?

 

Cão Guimarães é um artista plástico, onde a grande tela das salas de cinema são suas pinturas em movimento. Cada plano é um quadro de sua exposição sobre a solidão. Andarilho é o segundo filme dessa trilogia (O primeiro é Alma do Osso lançado em 2004) e retrata a relação entre o caminhar e o pensar segundo a ótica de três andarilhos solitários que percorrem trajetórias distintas em estradas do nordeste de Minas Gerais. É a vida como um lugar de mera passagem.

 

Alma, Deus, anjos e o apocalíptico. Um dos andarilhos explica sua concepção de mundo, sua estrutura histórica de vida e um possível final para todos nós. Esse é o início de uma estrada dentro do filme. Explicações ora entendidas ora consideradas devaneios para aquele que conta e nós que ouvimos. O outro joga pedrinhas, como se fossem, cada uma delas, histórias, que vão para trás ou são memórias que já perdemos. O outro traz o senhor é deus como um outdoor em rodas. Um carrinho que caminha e prega como o condutor que distingue a importância dos pontos de vistas daqueles que vêem de estradas diferentes e que não necessariamente seguem uma direção. A viagem é aquele espaço livre da vida. Só vai a algum lugar aquele que procura.

 

www.caoguimaraes.com

 

1 Comentário

  • “Os Andarilhos” seria um nome mais apropriado, embora “O andarilho” traga mais força para o filme, que entrou em circuito comercial.

    Não foi atoa que ele abriu a bienal de SP e foi selecionado em Veneza.

    “O Andarilho” merece ser referenciado dentre os documentários mais experimentais brasileiros contemporâneos como “Estamira” e “Aboio”, por exemplo.

    Cao vem documentando lindamente, praticamente desbravando novos caminhos para o documentário nacional.

    “Acidente” dele com o Pablo Lobato pelo DOC.TV, aquele que eles juntaram o nome de 20 cidades mineiras, fazendo um poema, é um bom exemplo disto.

    Essa coisa transitória, essa falta de uma temática bem definida e sobretudo sua preocupação de captar a subjetividade estética, faz com que seus filmes fiquem leves e bonitos de se ver.


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