Numa dualidade comedida, entre futilidade e refinamento primoroso, o diretor francês Claude Chabrol, não excede em absolutamente nada em seu mais recente filme Uma Garota Dividida em Dois (La Fille Coupée en Deux ). Pelo contrário, joga tudo o que quer dizer ali na frente do espectador e demonstra que aquilo que vemos é tudo aquilo que queria ser dito, sem mais ou menos, ou até mesmo sem trocadilhos. Inclusive a originalidade da cena final que não peca em nada e traz um grande fechamento daquele mundo de vaidade, tanto do bem quanto do mal. E é muito sutil como Chabrol trabalha esses dois universos nas figuras de uma esposa considerada santa, Dona Saint-Denis (Valerie Cavalli), sempre composta por um figurino branco e sua editora, Capucine Jamet (Mathilda May) sempre vestida com roupas pretas em cena. Uma mistura singela entre a deusa e a diaba. O número dois aqui não é mera coincidência, sempre há dois lados em toda sua narrativa.
Mas o filme não se concentra nisso, apesar de cada detalhe falar por si só, a história é baseada na vida da apresentadora de metereologia, Gabrielle Deneige (Ludivine Sagnier), de 25 anos, que se apaixona perdidamente pelo escritor Charles Saint-Denis (François Berléand), ao mesmo tempo o jovem milionário e totalmente desequilibrado, Paul Claude Gaudens (Benoit Magimel) se apaixona por ela, mas sem esta retribuir. Na verdade nessa história, Chabrol não posiciona muito o tempo e nem mesmo as motivações de cada personagem, pois não sabemos por que ela em único dia apaixona pelo escritor 30 anos mais velho e nem mesmo conhecemos as reais intenções do herdeiro jovem, bonito e rico. No entanto, talvez isso seja o que menos importa.
O jogo de câmera que Chabrol apresenta é um jogo de perspicácia casada de maneira sublime com a trilha sonora feita pelo seu filho Matthieu Chabrol. A introdução do filme tem imagens belíssimas com um ar de jantar com vinho. É delicioso acompanhar a câmera no carro ao som de música clássica. É quase um túnel nostálgico sem saída para a atualidade inesperada. Um livro sem ter aberto. Uma leitura suntuosa e hostil. Um fragmento de doçura como uma cereja na ponta do sorvete. Chabrol é surpreendente e proporciona aos espectadores uma seleta seleção de atores, estética, música e história. E obviamente uma crítica ácida, seja contra a televisão ou costumes frívolos sociais ao mesmo tempo em sintonia com o amor e as tragédias que ele pode ocasionar sem medida.
