Mudar o mundo é uma utopia, ação ou qualquer mera coincidência para inúmeras pessoas de coração bom. Que conseguem ter uma visão crítica e fazer uma análise mais otimista do nosso mundo, digamos, bastante esquisito. E para os orientais, a visão de mundo é mais ampla ou pelo menos diferente do que nós – pessoas do ocidente. As regras de lá não são tão balelas quanto às regras de cá. A religião não é tão fanática se compararmos às projeções neuróticas monetárias de cá.
Enfim, nossa geração, ainda não conhece o que de fato possa se chamar de guerra anacrônica ou pelo menos ter sentimentos mais próximos disso, até porque os jovens, pelo menos os brasileiros que conhecemos melhor, não têm em suas vidas, a maioria deles, uma política formada, talvez e por si só pequena, mais conformada. As últimas eleições para prefeito e vereador, não me deixa mentir sobre isso. É por isso que a animação Persépolis, baseada no livro homônimo da iraniana Marjane Satrapi e dirigido também por ela e por Vincent Paronnaud é um belo filme para recuperarmos nossos pensamentos de outrora.
Marjane “Marji” Satrapi (voz Chiara Mastroianni) era apenas uma garotinha iraniana de oito anos quando a revolução islâmica derrubou o xá do Irã, em 1979. Até então ela sonhava em ser profetisa para mudar o mundo. Bisneta do antigo rei da Pérsia, ela cresceu em uma família de esquerda, moderna e ocidentalizada, e estudou numa escola francesa e laica. Com a chegada dos extremistas ao poder, as meninas foram obrigadas a usar o véu na escola e estudar em classes separadas dos meninos.
Bastante curiosa e questionadora, Marji assistiu ao início da revolução que lançou o Irã no regime xiita, e de espectadora crítica e atenta descobre que melhor que ser profetisa é ser revolucionária e que usar hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas) é uma grande besteira criada pelo regime opressor persa contra a liberdade feminina. No caminho, ela ainda descobre que Marx pode ser melhor que Deus ou que os dois são a mesma pessoa. Que descobrir o mundo, além do Irã, pode ser sofrido quando sente o que pode ser uma grande desilusão amorosa ou ainda descobrir que identidade é uma pedra preciosa de toda formação humana.
O longa de animação é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito e ilustrado por Marjane Satrapi, é uma autobiografia primorosa e divertida sobre a realidade sofrida e bastante feliz de uma menina de olhos doces e idéias mirabolantes que depois de anos consegue mobilizar uma guerra contestatória a política ditatorial do Irã utilizando as mãos e o nanquim. Tecnicamente são traços em preto e branco belíssimos, que traz uma esfera meio noir, meio bucólica. Tendo como seu braço forte de questionamento e companheirismo, a avó (voz de Danielle Darrieux), que ainda apresenta os melhores e mais irônicos diálogos do filme e permite um ar de poesia em quadrinhos.
E ainda temos a refinada voz de Catherine Deneuve, como mãe de Marjane. Uma aula de história e reflexão sobre um dos países mais econômica e culturalmente rico do mundo. Atualmente Marjane vive na França e como no filme, ela sai do Irã pela segunda vez para nunca mais retornar. E quem sabe um dia o filme se passe no próprio país-personagem. Até porque, isso será uma luta que talvez Marji não queira entrar. Segundo alguns jornais, o governo iraniano já boicotou a exibição do filme porque credita que é uma propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã e do Islã. De qualquer forma, o filme foi o representante francês para a disputa do Oscar deste ano. E isso já é uma grande vitória!
MovieMobz
O filme Persépolis já saiu de cartaz há alguns meses, no entanto houve uma única exibição mobilizada no dia 30 de outubro de 2008, no Usina de Cinema, em Belo Horizonte. Havia mais de 50 pessoas na sala. Número raro para uma sessão em plena quinta-feira, às 21h, paga. Isso é resultado de uma idéia interessante de mobilização para ver ou rever filmes que passaram ou não pelas capitais. No site www.moviemobz.com, você se cadastra, escolhe o filme que está em cartaz no site, mobiliza as pessoas e a sessão acontece por apenas R$6 nos cinemas conveniados com o MovieMobz. Participe!


1 Comentário
Novembro 5, 2008 às 4:36 am
De longe a sua melhor crítica.
Acho maravilhoso este filme de animação. Ele tem uma narrativa politicamente pesada que fica branda quando colocada na personagem de uma criança, apesar de nada inocente.
Persepolis fala de feminismo, de política, de religião e do ser humano e seus conflitos internos e externos.
Adorei o filme e sua crítica!