Gomorra, sensação cinematográfica italiana, é um filme pretensioso. Quer ser a obra audiovisual definitiva da máfia. Para isso, acompanha cinco histórias diferentes, que nunca se cruzam, para compor um grande painel da Camorra, fenômeno mafioso do país em forma de bota, que cresceu no meio urbano e é responsável por atividades criminosas como contrabando, tráfico, agiotagem, extorsão, além dos eventuais homicídios.
Matteo Garrone deve ser elogiado por não cair na tentação que prejudicou Crash eBabel: conectar as histórias, obrigando aos espectadores a comprarem a forçação de barra das inverossímeis coincidências que infestaram as produções de Paul Haggis e Alejandro Gonzalez Iñarritu. Porém, ao compor seu longa, Garrone se esqueceu do que sobra em Crash e Babel: construção dos personagens. Os personagens são utilizados no filme italiano quase que como uma desculpa para atingir seu objetivo maior que é o tal raio-x da máfia. Por isso, o espectador acaba por não se envolver realmente com ninguém. Garrone até tenta uma conexão, através das influências do documentário, como a utilização atores não profissionais, cenários realistas, câmera em movimento, além dos closes nos rostos, mas é impossível com a montagem confusa e as histórias não tão bem construídas.
Apesar de querer mostrar a influência da Camorra através de personagens específicos, Garrone, no fundo, parece estar menos interessado nessas vidas do que em denunciar a organização criminosa. Talvez por isso, para mim, não funcionou tanto como uma obra de ficção, ficou cansativo. Mas o filme me abriu o apetite para ler a obra da qual foi baseado, livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano. Assim, como reportagem, essa história deve ser mais bem-sucedida.