Enterrado Vivo é um filme que, para mim, engana duplamente. Primeiro porque esse título em português dá a impressão de estarmos diante de alguma das produções mais medíocres que executivos da Globo selecionam para exibir no Supercine. Já imagino a cena. O executivo 01 pergunta: qual filme vamos passar no sábado à noite?. O executivo 02, em uma tentativa de ousadia, responde: “Ah, tem esse aqui com o Morgan Freeman”. O executivo 01 retruca: “É aquele que o Morgan Freeman tenta capturar um assassino ao lado de uma detetive bonita? Ou aquele que ele e o Jack Nicholson estão para morrer?”. O 02 responde um não desanimado. O 01 parece ter uma ideia genial: “Olha tem esse aqui. Enterrado Vivo. Não sei sobre o que é, mas o título é sugestivo, não? Imagine a locução. ‘Enterrado Vivo, hoje, no Supercine, após Zorra Total’. Acho que chama a atenção”. Quem conhece Enterrado Vivo apenas pelo seu título, portanto, pode se surpreender com o longa que, durante sua uma hora e meia, se passa apenas dentro de um caixão, onde o protagonista, um caminhoneiro sequestrado, está preso.
Já quem tem um conhecimento sobre o filme que vai além de seu título, pode ter uma expectativa alta. Afinal, um filme baseado no conceito de um único personagem, um único cenário – um caixão – e baseado na claustrofobia proveniente da situação, chama a atenção. Parece um sopro de originalidade entre os previsíveis thrillers produzidos pelo cinema. Mas as escolhas narrativas de Rodrigo Cortés, o diretor, e Chris Sparling, o roteirista, acabam trasformando Enterrado Vivo em uma espécie de Supercine high-concept.
Eu gostaria de assistir Enterrado Vivo no Supercine. Me surpreendeu o início do filme, os barulhos bem baixos que soavam da tela completamente preta. E continuar assim durante todo o longa. Cortés foi audacioso e não deve ter gastado muito. Fiquei pensando como os Estados Unidos lidam com o terrorismo e com seus próprios cidadãos, quando estes se encontram em uma situação de risco para a diplomacia internacional. E como a mídia ainda detém de um poder de direcionar as ações de governos quando dispostos a tal situação. Qual a diferença de um país como os EUA identificarem seus terroristas como bem entenderem e acharem no direito de combatê-los entre o entendimento do Iraque? O personagem confundido como um soldado é mais plausível em meu entendimento do que qualquer pessoa de burca ou com cara de muçulmano ser terrorista. Várias discussões ficam rodeando meu pensamento sobre esse assunto. Por isso, posso dizer que o texto tem lá suas contradições, mas suscita reflexões bastante interessantes. E obviamente, pegando seu gancho, o título em português não condiz com o que se vê.
Queria também destacar o jogo de camêra, deve ter sido dificil filmar no limite de estrutura. Tecnicamente o filme ajudou a caustrofobia pular para o espectador. E momentos de clímax da “dor” não conseguir acompanhar com os olhos e virar o rosto para o coração não sentir. Quando a câmera sobe, praticamente em uma hora de filme, é um ponto a mais para a idéia do encurralado sem esperança, trazendo uma distância de toda a ajuda possível.
Não sei se o filme chegou a provocar tais reflexões em mim. Acho que não. É claro que pensei sobre as contradições do governo norte-americano. Mas pensei porque o filme as coloca sem muita sutileza ou construção dramática. As reflexões que tive sobre o terrorismo provenientes do longa, talvez seriam as mesmas que viriam à minha cabeça se estivesse lendo uma notícia de jornal. São questões que, para mim, não saem muito do esperado quando se fala de Estados Unidos e Iraque. A reflexão existe, mas está mastigada demais. Não acho que um filme seja obrigado a trazer alguma reflexão sobre alguma coisa. Mas, se tiver sido este o objetivo, não acho tão eficiente.
Isso me irrita um pouco. Apesar de não ser original, é corajoso fazer um filme de uma hora e meia com um personagem em um cenário claustrofóbico. Mas o frescor é interrompido quando Cortez usa elementos pouco inspirados para criar uma identificação ao personagem. É a mãe com demência, é a empresa sem ética, é a cobra dentro do caixão, é a sugestão de relacionamento dele com a colega de trabalho, é o dedo cortado, enfim. Não acho que eles ajudam no personagem. São apenas elementos jogados para para deixar a situação mais tensa. É menos um filme sobre um personagem e mais sobre a situação adversa. O protagonista começa como um homem com um pingo de esperança de sobreviver e termina como um homem com um pingo de esperança de sobreviver. O que o filme quis mostrar? Que estar preso é um caixão é uma situação-limite? Isso a gente já imagina.
Agora, não posso ser hipócrita e falar que o filme é ruim. É mais decepcionante. Definitivamente fiquei tenso em Enterrado Vivo. Mas acho que existiam maiores possibilidades a serem exploradas.
Realmente nenhum filme é obrigado a trazer reflexões políticas e muitos não o trazem, mas deveriam. Enterrado Vivo me trouxe alguns questionamentos sobre política internacional, mas talvez Cortés teve uma única preocupação de filmar um roteiro bem escrito e contar uma história de uma situação limite, e mesmo assim nem consiga completar essa idéia, já que, como você disse e eu concordo, “é menos um filme sobre um personagem e mais sobre uma situação adversa” sem muita amarração. Mas ainda sim me chama a atenção a atuação de Ryan Reynolds, os cortes feito por Cortés. Como fazer cortes com um único ator em cena dentro de uma mesma locação? Deve ter sido um bom exercício de pensamento.
De acordo com o diretor o filme foi feito durante 17 dias, sendo que cada dia eram cerca de 35 cenas rodadas e um dia chegou a 52. Mais um ponto a favor de Ryan, deve ter ficado com boas dores no corpo. E como já falamos, foi um filme de baixo orçamento – 3 milhões de dólares – e cerca de 7 caixões construídos para os 88 minutos de filme. Cortés deve ter lido o roteiro e pensado: ninguém nunca filmou um único personagem dentro de um caixão durante quase 1 hora e meia, vou inserir alguns ingredientes para as pessoas aguentarem até o final e vou rodar esse filme.
Enterrado Vivo tem seus méritos. É um filme tenso. E como parecia ser o objetivo de Cortez, é possível dizer que se trata de uma obra bem-sucedida. Ryan Reynolds impressiona. E o que o diretor fez com seu orçamento reduzido deve ser levado em conta. Se ele desperdiça um pouco o potencial da situação-limite, ele compensa com a forma como constrói o filme através de planos, de iluminação, de fades, enfim. Pode parece que eu achei o filme uma grande merda. Não é. Rolou uma decepção. Esperava que, por todos esses motivos, teríamos um filme com um certo frescor. Não foi o caso.
Não acho que filmes deveriam fazer reflexões políticas. A obrigação de um filme é ter um objetivo claro (não quero dizer óbvio e entregue de forma mastigada ao público, mas um objetivo consistente) e fazer jus a este objetivo. E os objetivos podem ser diversos. Desde ser uma crítica política, ou apenas fazer rir.. Como disse, Enterrado Vivo traz reflexões políticas. Mas não acho que ele seja um filme melhor por isso.
Não é. E nenhum filme vai ser melhor ou pior por trazer reflexões políticas. O que será mais importante vai ser a forma de contar a história. Políticos todos somos, mas não sabemos disso. Enfim, não é essa discussão e com certeza Enterrado Vivo não os leva as profundezas políticas de uma globalização mal feita. É um filme que deve ser visto. Cortés tem boas técnicas e ficamos tensos durante alguns momentos do filme, isso é bom também, nos tira de um bem estar comum dentro de uma sala de cinema.
Enterrado Vivo é o segundo longa do diretor que na Espanha está concorrendo entre nove indicações (diretor, filme, roteiro, ator, fotografia, som, música, efeitos especiais e montagem) ao Prêmio Goya 2011. Deveria ganhar em montagem, apesar que não assisti os outros três para estar certa disso.
Demorei, mas respondi. Deu para pensar um pouco melhor sobre Enterrado Vivo. Sei que todo meu discurso dá a entender que achei o filme uma grande porcaria. Não é. Cortez faz um ótimo jogo de planos. Mas poderia ter sido melhor aproveitado. É tenso. Poderia ter sido mais. Talvez se focasse mais no personagem e menos no acontecimento. É a minha conclusão.