
Nicole Kidman é uma atriz que eu respeito. Não por agora estar enchendo seu rosto de botox, mas sim por suas escolhas arriscadas. Depois de Moulin Rouge!, As Horas, Os Outros e Dogville a atriz alcançou um status no qual, provavelmente, poderia escolher os filmes nos quais gostaria de atuar, e os diretores com quem gostaria de trabalhar. Mas o que se vê é que entre escolhas de comédias bobinhas (A Feiticeita, Mulheres Perfeitas) e filmes com cara de Oscar (Cold Mountain e o inédito Austrália), ela também entra em filmes que, se não são sempre bons, com certeza são arriscados e diferentes.
Primeiro foi o Reencarnação, de Jonathan Glazer, diretor de videoclipes fodíssimos, como o Karma Police, do Radiohead. Só de aceitar trabalhar em um filme de Glazer já é uma certa ousadia da parte de Kidman. Ousadia que é reforçada pela história de uma mulher que acredita que um menino de dez anos é a reencarnação de seu marido. O filme é estranhíssimo e foi duramente criticado, mas acho um filme, ao menos, interessante. Outro muito criticado foi o A Pele, biografia da fotógrafa Diane Arbus. Nunca vi tal obra, então não posso tecer comentários, mas dizem ser um retrato nem um pouco convencional, o que já era de se esperar ao ler o subtítulo original da obra: An Imaginary Portrait of Diane Arbus. O fato do filme ser dirigido e escrito respectivamente por Steve Shainberg e Erica Cressida Wilson, o mesmo time do excelente Secretária, mostra como Kidman é aberta a papéis fora do usual.
Agora esse Margot e o Casamento. É difícil ver uma estrela como Kidman se arriscar em um papel tão sem carisma como o de Margot. Não dá para imaginar alguém como Julia Roberts ou Renée Zellweger ou Reese Whiterspoon em um personagem desse. Dirigido e escrito por Noah Baumbach, de A Lula e a Baleia, há em Margot e o Casamento um mal-estar constante. Nele, Margot e seu filho, Claude (Zane Pais), voltam para a casa onde ela vivia quando criança e onde, agora, sua irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), com quem não conversa há algum tempo, vive. Ela está prestes a se casar com Malcom (Jack Black), motivo da visita da irmã. Margot é uma mulher cruel em seus comentários, atira para todos os lados, principalmente para as pessoas que ama.
Noah Baumbach se mostra aqui, fora dos padrões comerciais. Em uma época de filmes bonitinhos, de finais felizes, com personagens de grande carisma, fazer um filme desagradável alguns momentos, chega a ser um ato corajoso. Mas ser desagradável não é ser ruim. Aliás é muito claro que o objetivo de Baumbach é incomodar com a sinceridade de seu roteiro e personagens. Assim como em A Lula e a Baleia nada é colocado com clareza em Margot e o Casamento. Não importa muito os fatos que antecederam o momento do filme. O que importa é aquele momento, o despertar de mágoas surgido nele.
O grande problema do filme é que são tantas questões mal-resolvidas e mágoas, que nenhuma delas são muito bem trabalhadas. O filme não parece ter um fio da meada. Baumbach queria fazer um filme que incomodasse as pessoas e, para isso, utilizou um monte de cenas com situações constrangedoras ou incômodas, mas não desenvolveu o filme em conjunto. Parece uma coleção das tais cenas e não uma obra inteira.
Mas o que vale a locação aqui, é a atuação da dupla principal. Jennifer Jason Leigh, uma ótima atriz pouco reconhecida do grande público, constrói uma Pauline frágil e insegura e, ao mesmo tempo que critica sua irmã, mostra-se dependente dela. E, Kidman, tem aqui sua melhor atuação desde Dogville, que tem semelhanças com a primeira grande performance da atriz em Um Sonho Sem Limites. Kidman, como Margot, despe-se de toda a vaidade e abraça a falta de carisma do personagem. O que temos aqui é uma atriz corajosa, dirigida por um cara corajoso. Pena que, no caso de Baumbach, coragem não foi o suficiente e, no caso de Kidman, se tal qualidade a ajuda na construção deste personagem, o filme não faz jus à ele.
Ficha Técnica
Título Original: Margot at the Wedding
Tempo de Duração: 93 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach