Arquivos para 'Vitor Drumond'Categoria

Gomorra

janeiro 7, 2009

 

072Gomorra, sensação cinematográfica italiana, é um filme pretensioso. Quer ser a obra audiovisual definitiva da máfia. Para isso, acompanha cinco histórias diferentes, que nunca se cruzam, para compor um grande painel da Camorra, fenômeno mafioso do país em forma de bota, que cresceu no meio urbano e é responsável por atividades criminosas como contrabando, tráfico, agiotagem, extorsão, além dos eventuais homicídios.

Matteo Garrone deve ser elogiado por não cair na tentação que prejudicou Crash eBabel: conectar as histórias, obrigando aos espectadores a comprarem a forçação de barra das inverossímeis coincidências que infestaram as produções de Paul Haggis e Alejandro Gonzalez Iñarritu.  Porém, ao compor seu longa, Garrone se esqueceu do que sobra em Crash e Babel: construção dos personagens. Os personagens são utilizados no filme italiano quase que como uma desculpa para atingir seu objetivo maior que é o tal raio-x da máfia. Por isso, o espectador acaba por não se envolver realmente com ninguém. Garrone até tenta uma conexão, através das influências do documentário, como a utilização atores não profissionais, cenários realistas, câmera em movimento, além dos closes nos rostos, mas é impossível com a montagem confusa e as histórias não tão bem construídas.

Apesar de querer mostrar a influência da Camorra através de personagens específicos, Garrone, no fundo, parece estar menos interessado nessas vidas do que em denunciar a organização criminosa. Talvez por isso, para mim, não funcionou tanto como uma obra de ficção, ficou cansativo. Mas o filme me abriu o apetite para ler a obra da qual foi baseado, livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano. Assim, como reportagem, essa história deve ser mais bem-sucedida. 

Marley & Eu

janeiro 7, 2009

012Não deixe de ver Marley e Eu porque você detesta filmes com animais. Provavelmente, assim como boa parte dos espectadores lúcidos, você não curte produções nas quais os animais são mais espertos do que qualquer ser humano que você conheça. Assim como você odeia crianças que mais parecem adultos em miniatura, também não é muito fã de baleias que viram melhores amigas do garotinho, ou de um cachorro que se apaixona por um golfinho ou de um papagaio que conversa fiado com Tony Shalhoub. Acertei?

Se a resposta for positiva, vá assistir Marley & Eu sem esse medo. Marley é um cachorro normal como qualquer outro. É esperto e tudo mais, mas nada que vai fazê-lo pensar que o bicho conseguiria resolver uma expressão matemática.

Porém, se o roteiro de Scott Frank e Don Roos, baseado no fenômeno editorial homônimo, não coloca o filme nos ombros do cão, não existe muito interesse em assistir a história humana que se desenrola paralelamente às trapalhadas de Marley. Ao acompanhar o casal John e Jennifer Grogan, desde o começo do casamento até a construção de uma família, passando por crises, alegrias, gravidez, promoções e decepções, Roos e Frank, roteiristas talentosos, e David Frankel, o diretor, mostraram que não tiveram um poder de síntese que seria importante para contar uma história que se passa por tanto tempo.

Owen Wilson é engraçado, mas não dá conta das cenas dramáticas; Jennifer Aniston mostra, novamente, que é uma atriz versátil; Alan Arkin prova que mesmo no piloto automático é melhor que muito ator por aí e o tempo não fez nada bem para Kathleen Turner.

Marley e Eu é simpático, mas esquecível. Depois da sessão a única coisa que você vai se lembrar é que o cachorro é bonitinho. E só.

O Nevoeiro

setembro 13, 2008

O que pode ser mais aterrorizante que o ser humano, quando colocado em um contexto em que não há leis sociais? Para o diretor Frank Darabont, nem criaturas gigantes com asas e tentáculos, escondidas em um nevoeiro, conseguem ser pior que seu semelhante em tais condições.

Uma tempestade assola uma simpática cidadezinha norte-americana, e junto com ela um nevoeiro começa a se formar e a avançar. Para reabastecer suas casas antes de uma nova surpresa climática, os habitantes do lugar vão a um supermercado, o que provoca uma pequena bagunça, agravada pela falta de energia causada pela chuva. O nevoeiro continua a avançar quando, de repende, um homem sai sagrando do grande branco que virou a cidade. Ele diz que há criaturas na névoa. Se, boa parte da população do supermercado não acredita em um primeiro momento, a situação muda quando um garoto é morto pelos tentáculos do ser estranho.

Com o supermercado envolto pelo nevoeiro, todos ficam presos. É a deixa para o discurso da fanática religiosa Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden, na grande atuação do filme e, talvez, a maior de sua carreira) crescer. Para ela, as criaturas são um castigo de Deus. Na pequena síntese de sociedade formada no supermercado, todos vão obtendo papéis, e o dela, é o que desestrutura o que já está desestruturado. Ao longo da história, Carmody vai plantando sementes de fanatismo na cabeça de cada um dos habitantes desta mini-sociedade, já que, como no mundo real, idéias fanáticas acabam virando respostas para alguns mistérios do mundo.

Lógico, há o filme de monstro. Há o héroi, as cenas de tensão, as de ação. Tudo bem orquestrado por Darabont. Mas O Nevoeiro é de Mrs. Carmody e a construção dessa parcela de seres humanos que passam a conviver juntos. O filme podia ser só isso, e os monstros, se bobear, poderiam aparecer com menos intensidade do que já tem. Pena que Darabont não abriu mão das criaturas e fez sua pequena homenagem à filmes de terror dos anos 80. O que, em nenhum momento, tira os créditos do diretor. Quarta obra de Stephen King que ele adapta, aqui ele mostra suas habilidades de uma forma discreta. Alguns movimentos de câmera são particularmente interessantes, como quando filmando em plano geral o caos entre as pessoas, ela se aproxima do rosto de David, o héroi da história,e oferece a vista do espectador a expressão petrificada (ou algo parecido com isso, já que com o ruinzinho Thomas Jane tudo fica um pouco limitado) do homem, diante da situação que começa a tomar forma. 

Some a tudo isso um final corajoso para os padrões hollywoodianos e temos um filme de monstro, ou melhor, um filme de humanos acima da média.   

Linha de Passe

setembro 6, 2008

Depois de se aventurar em solo, Walter Salles volta à sua parceria com Daniela Thomas, primeiro em uma prévia, no segmento de alguns minutos de Paris, Te Amo e agora, em Linha de Passe, filme que saiu vencedor da categoria atuação feminina no Festival de Cannes. A parceria, pelo visto, faz muito bem para Walter Salles, como cineasta brasileiro. Não que sem ela, o diretor faça filmes piores. Central do Brasil está aí para não me deixar mentir. Mas, parece que, com Thomas, o Salles calculado de Abril Despedaçado ou Diários de Motocicleta, dá lugar a uma direção dupla que preza por algo mais natural, mais realista que, conseqüentemente, produz momentos profundos de um Brasil verdadeiro.

 

Em Linha de Passe, os diretores observam a vida de uma família na periferia de São Paulo. Cleuza (Sandra Corveloni) é a mãe, uma corintiana fanática, grávida de um homem sem nome e rosto, como quase todos os outros pais dos quatro filhos que já tem. É uma mãe preocupada que tenta levá-los para o bom caminho e apoiá-los, mas isso não faz dela uma santa. Fuma compulsivamente e bebe mesmo com uma criança na barriga, além de dar cigarros para o filho da dona da casa onde trabalha como empregada. O filho mais velho, Denis (João Baldasserini) é um motoboy bon-vivant que nunca tem dinheiro para ajudar em casa e para pagar remédios do próprio filho, mas sempre arruma alguns trocados para os seus prazeres. Dinho (José Geraldo Rodrigues) é um ex-garoto problema que virou evangélico e trabalha como frentista para um patrão que não dá a mínima para o garoto. Dario (Vinícius de Oliveira) sonha em ser jogador de futebol, mas nunca passa pelas peneiras, ou por ser “fominha” demais, ou por ser velho demais. E Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), o caçula, filho de um motorista de ônibus negro e, conseqüentemente, o único negro dos filhos de Cleuza, mata aulas para passar o dia viajando de ônibus para, assim, encontrar seu pai.

 

Salles e Thomas tem o cuidado de não deixar seus personagens caírem no estereótipo. O evangélico não é caricaturado por ser um religioso fanático, nem o motoqueiro é construído através do protótipo do malandro. Há um equilíbrio e um extremo cuidado na construção de todos eles. Por isso, um espectador mais acostumado com os arquétipos do cinemão tradicional e fechado a caracterizações mais realistas pode até chiar por sentir falta daquelas cenas de explosão, daquele clímax, daquelas emoções artificiais produzidas por esse tipo de filme. Esses modelos não têm vez em Linha de Passe. Aliás, em um momento os diretores até se rendem às explosões emocionais (cena do filho motoboy no carro de um homem de classe mais alta). Mas essa pequena derrapada só serve para mostrar que o que funciona mesmo em Linha de Passe é o realismo, a naturalidade, o equilíbrio dos personagens.

 

Claro, nada disso seria possível sem um elenco de primeira. Diga o que quiser do método Fátima Toledo de preparação de atores, mas que é extremamente eficaz isso não se pode negar. Grandes atuações do cinema brasileiro saem da preparadora de elenco e agora ela tem mais cinco feitos para colecionar. É injusto destacar alguém. Acredito até que, o prêmio de melhor atriz para Coverloni foi uma forma de Cannes premiar um elenco extremamente coeso e talentoso, já que não existe um prêmio de elenco no Festival. Todos estão tão imersos nos personagens, que nem parecem atores interpretando alguém, e sim o próprio alguém.

 

Já li que Linha de Passe passa uma idéia de determinismo social. Para mim, é justamente o oposto. Salles e Thomas não julgam ninguém, nem classe baixa, nem alta e nem média. Seus personagens centrais não são tratados como coitados que são como são por causa do meio em que vivem. É óbvio que influencia, mas a São Paulo caótica e desumana não é a justificativa das atitudes que eles tomam. É essa consciência de que não há necessidades de julgamento que faz de Linha de Passe um filme maior. E o estilo extremamente realista, quase documental, a fotografia sem cores vibrantes, a trilha pesada em alguns momentos só engrandecem o filme de Salles e Thomas. Salles e Thomas. Espero repetir isso mais vezes daqui para frente. 

 

Romeu e Julieta da desigualdade social

agosto 29, 2008

Com algumas exceções, parece que cinema popular no Brasil não pode ser sinônimo de obras de qualidade. Basta dar uma olhada no ranking de bilheteria de filmes brasileiros no ano passado. Encabeçado por Tropa de Elite, segue com A Grande Família: O Filme, Xuxa Gêmeas, Primo Basílio, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Turma da Mônica: Uma Aventura no Tempo, O Homem Que Desafiou o Diabo, Ó Paí Ó, Cidade dos Homens, finalizando com Caixa Dois. Dessa turma, se tirarmos Capitão Nascimento e Laranjinha e Acerola, temos apenas produções duramente criticadas pela imprensa. É nesse contexto que entram nomes como Breno Silveira e Mauro Lima. Por mais que não morra de amores por ambos, são diretores que, com ajuda de gente talentosa, tentam conciliar qualidade com popular, e acabam por arrebatar público e crítica, como em Dois Filhos de Francisco, de Silveira e, em menor escala, Meu Nome Não é Johnny, de Lima.

Aí que entra Era Uma Vez…, segundo filme de Silveira, que também contou com gente talentosa. O roteiro é de Patrícia Melo, com colaboração de Domingos de Oliveira. O filme é da Conspiração Filmes que já levou ao público coisas legais como Casa de Areia, Redentor, O Homem do Ano, Eu Tu Eles. Talvez a pretensão não seria bater os recordes de Dois Filhos de Francisco, mas que queriam fazer um produto de qualidade para o grande público, é visível. Só que alguma coisa não funcionou.

É claro que não se pode esperar originalidade na história de um morador da favela que se apaixona por uma menina de classe bem mais alta. Silveira, conscientemente, trabalha com clichês e mostrou em Dois Filhos de Francisco que sabe emocionar mesmo fazendo a coisa mais batida do mundo. É só lembrar da primeira parte do filme, quando a infância da dupla sertaneja é mostrada. Longe de ser o filme sensacional que pregaram, ele sempre usa dos lugares comuns de filmes-de-cantores-que-tiveram-uma-infância-pobre-e-sofrida, mas provoca uma emoção genuína, importantíssimo para um filme popular. Já em Era Uma Vez…., o diretor também usa dos clichês, mas aqui, ele abusa um bocado, o que transforma a emoção em incômodo. Não tem nada aqui que não fuja do deja vu: a questão da desigualdade amplamente trabalhado em cinema, novelas, minisséries e várias outras produções audiovisuais brasileiras. A questão do amor impossível, exaustivamente falado em filmes do mundo, com direito a ex-namorado almofadinha da mocinha, a mãe pobre que tem medo das consequências que um namoro entre duas classes sociais distintas pode trazer à ela e a pai rico que, se a princípio aceita o namoro dos dois é porque já foi pobre uma vez na vida. O didatismo também empobrece um filme que já não é dos mais ricos. Precisa os protagonistas estarem lendo Cidade Partida? Precisa do “mini-documentário” sobre Thiago Martins no fim do filme? Até mesmo no pôster o filme é didático Nele, os protagonistas estão se beijando e, abaixo, uma imagem do Rio de Janeiro, englobando o morro e os prédios de classe alta. Por fim, a pitada de mestre: uma rachadura separando o casal e a cidade.

Mas é no final que o filme chega ao fundo do poço. Sem querer estragar, mas consciente de que você já deva desconfiar como é, ele parece ter sido feito às pressas. Mesmo que o final não pudesse ser outro, devido às intenções do roteiro, ele não foi trabalhado suficientemente para que a público possa degluti-lo sem problemas.

A possível conclusão é a que, quem faz cinema popular no país, deve ter consciência de que seus roteiros devem ser bem melhor trabalhados. Afinal, Era Uma Vez é um filme com uma ótima fotografia, um diretor que (ainda) acredito ter talento quando tem um material bom em mãos, e um bom elenco, com destaque para Rocco Pitanga e Martins. Porém, deu errado. Se o roteiro fosse bom, a situação seria outra. Aliás, seria bem melhor que qualquer um de nós poderia imaginar, pois, escrever coisa boa de uma premissa pra lá de batida como esta, seria algo a se lembrar.


O Retorno de Zé do Caixão

agosto 25, 2008

Reestreiou, na última sexta, dia 22 de agosto, o filme Encarnação do Demônio, de Zé do Caixão. Passando inicialmente em cinemas de shopping, o filme do coveiro que procura a mulher para gerar o filho perfeito, não foi bem de bilheteria, saindo de cartaz depois de uma semana. Agora, a reestréia é a chance de o público assistir uma obra como poucas no Brasil. Para alguns críticos, um dos filmes mais ousados da cena contemporânea do audiovisual brasileiro. Análise do filme na Revista Cinética e no Filmes Polvo. Em breve colocaremos a nossa. Ainda não vimos o filme. Mas, vamos prestigiar Zé do Caixão, um dos grandes ícones brasileiros com uma longa história cinematográfica.

 

O Cavaleiro das Trevas

julho 31, 2008

O crime organizado encontra, agora, algumas dificuldades para atuar na cidade X, que é conhecida por sua rede de corrupção. Uma delas é o promotor público, um político extremamente honesto que lutará das formas que tem em mãos para limpar o caos e pretende que, com a ajuda de todos, que a justiça volte a reinar na cidade. O outro obstáculo é um playboy milionário que, sigilosamente, tenta fazer a tal justiça com as próprias mãos. Ele é aliado de um comissário do Departamento de Polícia, e o ajuda a resolver crimes. É neste cenário que um homem aparece. Quase uma encarnação do mal, um anarquista psicopata extremamente inteligente, que não procura por dinheiro ou pela dominação do mundo e, portanto, não tem nada a perder. É apenas mal. Os criminosos da cidade vêm nele uma alternativa para acabar com o relativo sucesso do promotor e do justiceiro. E acaba sendo uma alternativa eficaz, pois o tal homem transforma a cidade em um caos maior do que se encontrava.

 

Ok, mesmo se o título deste post não entregasse que estou falando de Batman: O Cavaleiro das Trevas, você, provavelmente, já teria percebido. Mas a sinopse acima, bem que poderia ser a de um filme policial dos dirigidos por Michael Mann, Ridley Scott ou Scorsese. A cidade X poderia não ser Gothan City e sim São Paulo, Boston ou Londres. O justiceiro poderia não ser Batman, o promotor ser Harvey Dent (posterior Duas Caras) ou o psicopata ser o Coringa. E essa é a grande sacada do roteiro de Christopher Nolan e seu irmão Jonathan. Batman: O Cavaleiro das Trevas não é um filme de herói tradicional, que se sustenta na velha luta entre o bem e o mal. Na verdade, a continuação de Batman Begins discute o papel do herói. O super-herói se enquadra em um contexto contemporâneo, no qual a corrupção e a violência parecem estar enraizadas na sociedade. Todos têm medo de algo, e sem acham no direito de fazer o que quiserem para levar a cabo a sensação de que um perigo real (ou imaginário) esteja à espreita. Nessa situação o que seria realmente eficaz? O justiceiro, que mata os criminosos e salva os reféns, mas que sempre vai matar criminosos e salvar reféns ou o promotor, que objetiva uma mudança na base? Já que o mal pode mudar até o mais incorruptível dos homens, transformando-o em um assassino frio (Harvey Dent / Duas Caras), o que realmente daria um bom resultado? Com esta discussão, Nolan faz de Batman: O Cavaleiro das Trevas um dos filmes de heróis mais densos e adultos já feitos. Claro, sua câmera ajuda, e muito, nesta construção. Os planos cortados, a edição veloz, tudo  muito rápido e intenso, levando o caos das telas para o espectador.

 

Somando à tudo isso, um dos elenco dos sonhos. Christian Bale continua o seu ótimo trabalho, ao construir este herói atormentado pelo o que é realmente certo ou não. Maggie Gyllenhaal faz uma Rachel Dawes bem superior à de Katie Holmes. Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman vão muito além de serem coadjuvantes de luxo. E, o sempre competente Aaron Eckhart seria o rouba-cenas do filme se não fosse por Heath Ledger. Em seu último trabalho, Ledger mostra que o cinema perdeu muito com sua morte. Desde quando resolveu ser um “ator sério”, sua carreirar crescia, e Batman é o ponto mais alto. Camaleônico, Ledger, como o Coringo,  dá medo pelo jeito de falar, pelo jeito de andar, pelo jeito de rir, pelo jeito de passar a língua na boca, pelo jeito de se portar, construindo o grande vilão de Batman. Pena não estar mais vivo para assistir a pequena revolução que Nolan fez no subgênero filmes de herói.

O Escafandro e a Borboleta

julho 9, 2008

 

Não é muito difícil um filme sobre superação pessoal virar um dramalhão meloso. A história de Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle, que depois de um derrame ficou totalmente paralisado, exceto no olho esquerdo e, mesmo assim, conseguiu escrever um livro através de piscadelas, teria tudo para seguir tal caminho se estivesse em mãos erradas. Mas as mãos do diretor e artista plástico Julian Schnabel se mostraram mais do que certas, o que fez de O Escafandro e a Borboleta um grande filme, que mescla ótimos momentos com toques de genialidade.

 

A primeira parte de Escafandro é a responsável por maior parte dos tais toques. Em seus primeiros bons minutos, a câmera toma o lugar do olho de Bauby (Mathieu Amalric, sensacional). Vemos, então, o que ele vê, do jeito que ele vê. Quando Bauby tenta acordar, as imagens não são muito claras. Quando seus olhos lacrimejam, a imagem fica embaçada. Quando Bauby se comunica através de piscadas, a tela fica preta rapidamente, demonstrando o fechar das pálpebras. As pessoas, os médicos, as terapeutas, as mulheres, todos ao tentarem se comunicar com ele, falam diretamente para a câmera. Junte a tudo isso a mente de Bauby. Apesar da “carcaça” estar paralisada, a mente funciona a todo vapor, e tudo que ele vê é marcado com comentários do próprio, muitos deles com pitadas de humor, o que causa uma certa cumplicidade entre espectador e personagem principal.

 

Chega um momento no qual o subjetivismo não é utilizado tão constantemente, e o filme passa a ter uma estrutura mais clássica. Mas isso não vira desculpa para ser tradicional. É, mais ou menos, nessa hora em que Bauby percebe que, apesar de estar quase totalmente paralisado, sua mente funciona, e ele pode sonhar, imaginar, lembrar, etc. O filme passa a contar com imagens oníricas e metáfora visuais belíssimas representando o estado interno de Bauby.

 

O roteirista Ronald Harwood conseguiu sair das armadilhas da história-de-superação-pessoal e por isso passou longe do perigo de transformar O Escafandro e a Borboleta em um filme simplório. A grande sacada do roteiro é não focar a superação como o assunto do filme, nem relação do personagem principal com terceiros. Poucas cenas são utlizadas para falar de sua relação com o pai (Max Von Sydow, emocionante nas poucas cenas que aparece), ou da relação com a ex-mulher (Emmanuelle Seignner) e os filhos ou então com a atual namorada. O importante na obra é o que se passa na cabeça deste homem que agora só tem ela e um olho para usar.

 

Não é difícil imaginar porque O Escafandro e a Borboleta recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes. Apesar de um excelente trabalho em conjunto, de Harwood à música de Paul Cantelon, passando pela atuação do elenco (que além de Amalric e Sydow, destaco também Marie-Josée Croze, como a fonoterapeuta de Bauby, responsável por uma das melhores cenas do filme, quando ela vai descobrindo aos poucos as palavras que Bauby quer dizer, através das piscadas, e vai se decepcionando ou se emocionando com elas) e pelo ótimo trabalho de edição, o grande destaque é o diretor de fotografia Januzs Kaminski e o diretor Julian Schnabel. Com ajuda do talento de Kaminski, o diretor Julian Schnabel se mostra mais sensível do que nunca na construção de imagens. Ainda com Kaminski, a ousada idéia de fazer grande parte do filme através da câmera subjetiva, funciona perfeitamente.

 

Com Kaminski ao lado, e sem menosprezar o incrível talento dos outros profissionais que trabalharam em O Escafandro, Schnabel consegue fazer uma biografia que não será lembrada apenas pela atuação magnética do ator principal, como acontece em grande parte dos filmes-biografias. Será lembrada por ser uma obra de arte.

 

 

Aparências…..

julho 2, 2008

A primeira coisa que descobrimos sobre Silmara (Rosane Mulholland) é que ela é uma belíssima mulher, com plena consciência do corpo e do poder de sedução que tem. Na primeira cena de Falsa Loura, quando  Silmara dança com a professora, isso já fica claro. É quase impossível desviar o olhar das mulheres, mesmo acontecendo algumas outras coisas em tela. Depois, ficamos sabendo que ela é uma operária e que, talvez por sua beleza, se acha superior às amigas, desdenha os homens e despreza  as operárias de outras fábricas. Mas depois, passamos a perceber que isso não passa de uma espécie de auto-proteção. Sua vida familiar não é das mais felizes. Mora com o pai, um ex-presidiário, que não consegue nada além de bicos e por isso sustenta a casa sozinha. A mãe saiu de casa por algum motivo e o irmão  tomou o partido dela e foi embora também. Homossexual,  tem relações péssimas com o pai, por mais que Silmara tente amenizar a situação. Assim como a maioria das pessoas normais, Silmara tem sonhos. Sonhos nada incomuns, sonhos com seus artistas de música favoritos. E, em Falsa Loura, os sonhos dela, a princípio, se realizam.

Mas as aparências enganam, e Falsa Loura se transforma em um filme sobre desilusões, o que fica bastante claro ao comparar a primeira e a última cena da ótima Rosane Mulholland. Se no começo Silmara tem controle completo sobre si, na cena final ela é o resultado de um conto de fada que deu errado, das decepções, ou mesmo, da realidade.

Todos se escondem de alguma forma em Falsa Loura. O pai de Silmara quer se esconder do mundo, porque uma mancha de queimadura esconde seu rosto. A aparente confiança  e os sonhos de Silmara escondem uma vida real. A figura de galãs inalcançáveis dos ídolos musicais por quem a protagonista sonha, escondem pessoas com mais defeitos do que os shows, as capas de CD e os pôsteres podem mostrar. A transformação de Briducha (Djin Sganzerla), ex-patinho feio e colega de trabalho de Silmara, esconde uma mulher com problemas internos. Esconder se torna uma forma de escapar do que há por trás das máscaras.

Para contar tal história, Reichenbach abraça o brega, que também é retratado com válvula de escape das personagens, o que funciona muito bem. A começar pelo elenco que conta com Cauã Reymond, Maurício Mattar, Suzana “Tiazinha” Alves, Léo Aquila e outras personas marcadas pela figura popularesca que têm na televisão. Algumas das cenas mais hilárias do filme, aliás, utilizam de tal estilo. Silmara, sozinha no quarto, sonhando com seu ídolo da música, Luís Ronaldo (Mattar). Em tal sonho, os dois  andam de mãos dadas sob um mar de papel celofane azul e cantam uma música acompanhada por uma legenda, no melhor estilo videokê. Usar do brega poderia ser um risco, mas Reichenbach soube tirar proveito e fez disso um reforço à mensagem do filme.

No fim das contas, apesar de alguns diálogos artificiais aqui e acolá, a paixão de Reichenbach por suas mulheres faz de Falsa Loura um painel interessantíssimo  sobre essa mulher de classe média, cheia de sonhos, mas que quando a realidade bate à porta, e quase sempre bate, a queda é grande e dolorosa.

Tempo de Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2008
Direção e roteiro: Carlos Reichenbach

 

Por que eu respeito Nicole Kidman

junho 21, 2008

Nicole Kidman é uma atriz que eu respeito. Não por agora estar enchendo seu rosto de botox, mas sim por suas escolhas arriscadas. Depois de Moulin Rouge!, As Horas, Os Outros e Dogville a atriz alcançou um status no qual, provavelmente,  poderia escolher os filmes nos quais gostaria de atuar, e os diretores com quem gostaria de trabalhar. Mas o que se vê é que entre escolhas de comédias bobinhas (A Feiticeita, Mulheres Perfeitas) e filmes com cara de Oscar (Cold Mountain e o inédito Austrália), ela também entra em filmes que, se não são sempre bons, com certeza são arriscados e diferentes.

Primeiro foi o Reencarnação, de Jonathan Glazer, diretor de videoclipes fodíssimos, como o Karma Police, do Radiohead. Só de aceitar trabalhar em um filme de Glazer já é uma certa ousadia da parte de Kidman. Ousadia que é reforçada pela história de uma mulher que acredita que um menino de dez anos é a reencarnação de seu marido. O filme é estranhíssimo e foi duramente criticado, mas acho um filme, ao menos, interessante. Outro muito criticado foi o A Pele, biografia da fotógrafa Diane Arbus. Nunca vi tal obra, então não posso tecer comentários, mas dizem ser um retrato nem um pouco convencional, o que já era de se esperar ao ler o subtítulo original da obra: An Imaginary Portrait of Diane Arbus. O fato do filme ser dirigido e escrito respectivamente por Steve Shainberg e Erica Cressida Wilson, o mesmo time do excelente Secretária, mostra como Kidman é aberta a papéis fora do usual.

Agora esse Margot e o Casamento. É difícil ver uma estrela como Kidman se arriscar em um papel tão sem carisma como o de Margot. Não dá para imaginar alguém como Julia Roberts ou Renée Zellweger ou Reese Whiterspoon em um personagem desse. Dirigido e escrito por Noah Baumbach, de A Lula e a Baleia, há em Margot e o Casamento um mal-estar constante. Nele, Margot e seu filho, Claude (Zane Pais), voltam para a casa onde ela vivia quando criança e onde, agora, sua irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), com quem não conversa há algum tempo, vive. Ela está prestes a se casar com Malcom (Jack Black), motivo da visita da irmã. Margot é uma mulher cruel em seus comentários, atira para todos os lados, principalmente para as pessoas que ama.

Noah Baumbach se mostra aqui, fora dos padrões comerciais. Em uma época de filmes bonitinhos, de finais felizes, com personagens de grande carisma, fazer um filme  desagradável alguns momentos, chega a ser um ato corajoso. Mas ser desagradável não é ser ruim. Aliás é muito claro que o objetivo de Baumbach é incomodar com a sinceridade de seu roteiro e personagens. Assim como em A Lula e a Baleia nada é colocado com clareza em Margot e o Casamento. Não importa muito os fatos que antecederam o momento do filme. O que importa é aquele momento, o despertar de mágoas surgido nele.

O grande problema do filme é que são tantas questões mal-resolvidas e mágoas, que nenhuma delas são muito bem trabalhadas. O filme não parece ter um fio da meada. Baumbach queria fazer um filme que incomodasse as pessoas e, para isso, utilizou um monte de cenas com situações constrangedoras ou incômodas, mas não desenvolveu o filme em conjunto. Parece uma coleção das tais cenas e não uma obra inteira.

Mas o que vale a locação aqui, é a atuação da dupla principal. Jennifer Jason Leigh, uma ótima atriz pouco reconhecida do grande público, constrói uma Pauline frágil e insegura e, ao mesmo tempo que critica sua irmã, mostra-se dependente dela. E, Kidman, tem aqui sua melhor atuação desde Dogville, que tem semelhanças com a primeira grande performance da atriz em Um Sonho Sem Limites. Kidman, como Margot, despe-se de toda a vaidade e abraça a falta de carisma do personagem. O que temos aqui é uma atriz corajosa, dirigida por um cara corajoso. Pena que, no caso de Baumbach, coragem não foi o suficiente e, no caso de Kidman, se tal qualidade a ajuda na construção deste personagem, o filme não faz jus à ele.

Ficha Técnica
Título Original:
Margot at the Wedding
Tempo de Duração: 93 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach

 

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